Sexta-feira, Janeiro 27, 2006

Crónicas dos dias cinzentos

- Não é preciso ficar assim...- disse ela com um sorriso convidativo.

Quase tão convidativo como a racha na saia que lhe deixa à mostra boa parte da perna e as meias pretas

Tirou os sentidos dela, puxou o copo para si e olhou para o liquido translúcido como se tivesse a ler o futuro numas folhas de chá.
Bebeu tudo de um trago e olhou pela janela.

O dia parecia cinzento com as nuvens altas a tapar o sol e assumia que estaria frio pelo barulho de um vento cortante que soa das janelas.

Apertou o copo na mão.
Apetecia-lhe uma coisa mais forte mas não havia.
Olhou para o copo vazio e depois para ela.
Ainda estava encostada à ombreira, olhando para ele e o sorriso também ainda lá estava.
A luz artificial que caia directamente sobre ela dava lhe um aspecto de miúda.

Juntado isso à pose e à racha da saia, era material para fantasias de lolita cujo corpo e instintos cresceram mais que o arzinho adolescente do rosto.
Se bem que a saia, um espanador e sotaque francês também iam bem numa fantasia de french maid...

Descolando das imagens que a sua mente criava sem qualquer pudor, acabou por acenar afirmativamente com a cabeça e fazendo com que ela sai-se da sua presença.
Mas não sem antes lhe dizer “Tudo se vai resolver..:”

-...a bem ou a mal... – disse ele já sozinho e alto, para o copo vazio à sua frente.

Desejou mais que tudo ter uma garrafa de Jameson 12 anos numa das gavetas e um cigarro para acompanhar.
Desejou que o tempo para-se para ele sair sem ninguém notar
Desejou que ela volta-se para trás, levanta-se a saia e se senta-se em cima do seu colo, encaixando-se nele
Desejou ser alguém diferente para não fazer nada de estupido como a seduzir ou deixar se ir fugindo uma vez mais da felicidade encontrada.

Desejou um copo cheio, um cigarro acesso e não sabotar, como sempre fez, a sua re-descoberta paz de espirito.
Desejou que a insatisfação que o fez correr para algo melhor não seja a génese da destruição do que tem, do que quer.
Desejou que um copo mais um cigarro sejam iguais a paz de espirito e que isso o aguente por mais um tempo
Desejou mudar o seu âmago como se muda a pilha de um comando


Desejou com força por que sabe que a insatisfação é o tipo de comichão que tem de ser coçada


Banda Sonora
Not even jail, Interpol

Segunda-feira, Janeiro 23, 2006

Consideração estética (...que rabo!)

(nota1: é de todo necessário desabafar com alguém estas situações antes que fique com alguma "boca" atravessada e isso me provoque o deslocar do maxilar)

Sou um gajo de rabos.

Há quem seja um gajo de mamas, de pernas, de pés, mãos, ombros, cotovelos e claro, gajos que gostam de gajos

Mas eu sempre fui um gajo de rabos.

Há vários factores que me fascinam numa mulher como os olhos, cabelo, rabo, mãos, voz, traseiro, sorriso, mamas, pescoço, pés, bunda, sentido de humor, inteligência, rabinho, olhar, feito, sofisticação, bom gosto e claro, palmadeiro (sitio de aplicação de palmadas), mas os ponderadores não são os mesmos e se gosto de um bom decote e de uns olhos bonitos, também gosto de um humor cortante e um sorriso maroto.
Agora, o factor físico que mais regularmente me deixa a olhar é o rabo

Mas por que é que raio isso vêm hoje veio à baila?

Por que desde sexta que dei, não tão literalmente quanto possível mas..., com um traseiro que me chamou à atenção.
Mais que os outros, claro

Já o tinha visto, já o tinha observado de surra, até já o tinha comentado de mim para mim, mas desde sexta que se tornou O rabo daqui!


O que é que o fez ganhar esse tão cubiçado prémio?
Eu conto:

Na sexta, casual day, a menina do rabinho bonito apareceu com umas calças de ganga escuras e justas.
Só por si, já era uma boa novidade, mas ao passar no departamento dela, para conversa da treta com um dos (poucos) gajos que aqui há, reparo numa tanga vermelha sangue, presa por cordões quebrava a monotonia visual. A sua dona, descontraidamente, trabalhava sem notar o sinal de stop que irradiava do fim da costas.
Ao estar sentada, as calças baixaram e ficou à vistas de todos a belíssima tanga que faz a maravilhas do libido masculino.

A imagem ficou-me na retina e passeia a olhá-la com outros olhos.
Não é nenhuma beleza ou o cumulo da sofisticação, mas aquele rabo...vale bem a pena observar!
Ainda mais pela falta de competição...

Hoje, para meu gáudio, ao passar pelo departamento dela (nota2: eu passo por lá muitas vezes não por causa dela mas por que fica perto do meu e no acesso à sala de fumo. O rabo dela só torna o caminho mais agradável) vejo a sentada e por mero acaso (nota3: lembrem-me de agradecer ao deus dos acasos libidinosos) a menina mexe-se na cadeira para apanhar qualquer coisa e, taaarraammm!!!, um cordão verde azeitona prendia uma pequena, repito, pequena wale tail que ia directamente, e com pouco pano, para sul.

12.97 milésimos de segundo e 4 fantasias depois, lá cumprimentei o departamento e o gajo que lá trabalha, no meio de 6 mulheres e ao pé do rabinho da menina que ficará aqui conhecida por “querido”.

"Querido" por que é assim que eu chamo a um rabo de a uma miúda que conjuga o fio dental para condizer com a roupa que trás por cima.
Admiro a sua ética

Mas ainda mais a estética


Banda Sonora
Wild hearted son, The Veils

Sexta-feira, Janeiro 20, 2006

Constatação de T

Conclui-se que um dia foi de merda quando, se e só se, as duas horas de matemática aplicada ao fim do mesmo relaxam e são terapeuticas

Dasssseeeeee!....


Banda Sonora
Public Pervert, Interpol

Quarta-feira, Janeiro 18, 2006

Make my day...

Ao contrário do que pode transpirar do ultimo post, eu não sou executor profissional, um Dirty Harry com um magum carregada de despedimentos ou um extreminador (T?) de postos de trabalho.
Mas para o que me pagam (quer dizer, acho que pagam por que ainda não vi nada...) é para pôr uma área complexa, com especificidades próprias e com 30 mulheres a funcionar.

Simples, não?

(Choro contido)
Yeah, right...

Esta é uma montanha que vai demorar a escalar e já fez algumas vitimas no passado por que há uma cultura já assumida que vai ser do camandro para alterar, pessoas com anos de casa e acomodadas além de muitas falhas de casting

Imaginem:
Um programa de televisão que tem de agradar a todos os telespectadores, mas que além de dinâmico, tem de ser didáctico, para rir, profissional, isento e funcional.
Agora imaginem que é o Eduardo Prado Coelho que cria esse dinamismo, o Fernando Rocha da parte didáctica, os “Batanetes” garantem o riso, o Jardel faz furor com o profissionalismo, um arbitro da Liga é o modelo de isenção e é um burocrata do ministério da Administração Interna que o torna funcional!

Depois deste cenário esperado v.s. realidade, eu que me desenrasque e salve a honra desta dama, que há muito é concubina de harém turco!
Para isso, temos de tirar o que não está cá a fazer nada e arriscar com pessoas novas, mais direccionadas e se Deus for grande, mais giras.

Infelizmente, tive de dispensar pessoas, não por estarem a mais (apesar de serem 30 gajas ainda faltam pelo menos 15 pessoas, que pelo rácio quer dizer que vêem mais 12 mulheres. Vejo a calvície os problemas nervosos no meu futuro com cada vez mais clareza...), mas por não estarem de acordo com os mínimos exigidos para as funções.
Foram decisões de ordem de gestão que lamentavelmente tenho de tomar.

It’s a dirty job but some one’s gotta do it


Banda Sonora
We care a lot, Faith No More

Segunda-feira, Janeiro 16, 2006

Ogre

A frieza das estatísticas dizem:

25 dias na função
2 despedimento
1 não renovação
1 pedido de demissão

Será do meu perfume?


Banda Sonora
Flyer attendant, Josh Rouse

Quarta-feira, Janeiro 11, 2006

I see you

O trânsito é uma boa altura para reflexão

Sozinho, no carro, o rádio na Radar, o travão de mão puxado, de vidro semi abertos para deitar a cinza do cigarro que faz companhia e serve de ouvinte, debito conversas internas, sonhos, histórias.

Falo e canto, sonho mais e converso outra vez.
Os carros quase nem mexem e a viagem é longa
Sinto-me cansado mas leve, arrisco mesmo a dizer, ausente.
Falava sozinho, deitava a cinza pelo vidro e lembrei me de ti.

Pensei como ainda não tínhamo-nos cruzado agora que estávamos tão próximos, em linha recta, menos de 300m, num sitio que é um fim do Mundo no meio de Lisboa?
Pareceu me cada vez mais provável que nos viéssemos a encontrar.

Seria estranho?
Gaguejaria?
Seria para ti mais uma “pessoa” que reviste passado anos?
Olhar-me-ias com desapego, sem réstia de emoção ou comoção, apenas com delicadeza e simpatia plástica?
Ou ainda restaria uma paixão num braseiro apagado mas não frio, uma tristeza e pena do que tivemos e perdemos ou um sorriso que não conseguirias esconder?
Quanto tempo levaria a reconhecer-me e às diferenças do que sou e do que era?
Ou ser-te-ia indiferente por que sou para ti o que mais temo, nada?

Pensei que seria o começo de mais uma epopeia de copos para calar a vozinha da minha cabeça que me acusou, por anos, de ter cometido o maior erro consciente da minha existência quando te perdi por erros próprios, por te ter magoado, por te ter deixado desvanecer, tentado acreditar que não te amava, que nunca fiz tudo para que ficasses, que eu tinha a culpa de tu não seres mais que uma memória dolorosa e assunto recessivo de posts deprimidos.

A luz do semáforo mudou e chamou a minha atenção
Ajudou a concentrar-me no que me envolvia, carros e mais carros, e menos na minhas dissertações.
Puxei mais uma passa para que os pensamentos se encadeassem, olhei para o trânsito imóvel e para o retrovisor:

O primeiro impacto foi de não fazer sentido
O segundo foi como se a cara reflectida no espelho tivesse ganho mais nitidez em relação ao que os meus olhos captavam e chamavam de “realidade”
O terceiro foi confirmar que devemos ter cuidado com o que pedimos

Não fiquei siderado
Não fiquei mortificado
Não perdi os sentidos
Não fiquei surpreso

Mas ali estavas tu, a falar enquanto olhavas de alto para a estrada no carro mesmo atrás do meu.
Imagino que com auricular e o mesmo em chamada, não como eu que ponho o auricular para falar sozinho e não parecer demasiado doido.
Ridículo, não?

Não estavas em pose de menina perdida nos sonhos que passam por de trás dos olhos
Ou com olhar de femme fatal
Não eras o mito de beleza e atracção que por vezes criei
Estavas apenas a falar, com um ar que te conheço quando a conversa é banal, sem sorrires, com os teus olhos verdes iluminados pela luz, do candeeiro do passeio, que desaguava em ti.
Cabelo loiro pelos ombros, ondulado e cachecol ao pescoço, por que és friorenta e precisas deles para sobreviveres ao Inverno
Estavas ali, tão distante, a um carro de mim, sem nem sequer perceberes ou ligares para quem estava em volta.

Não me reconheceste.
Se o fizeste, nada demonstras-te.

Pelos segundos que te observei, ainda com o cigarro na mão que estava fora do carro, imóvel de corpo e mente, só vendo, não me pareceu que ligasses ao carro à pessoa, a silhueta ao amante, a mão aos toques de amor trocados com teu corpo

Não fazias ideia que ali estava
Ou não tinhas a mínima intenção de que isso te importasse.
Não olhei para trás, só confirmei que eras tu pelo espelho
Não me mexi mais que o habitual, só puxei mais uma passa e deixei o fumo sair devagar, pelo nariz, enquanto focava o semáforo a mudar de cor
Não acelerei, deixei o carro seguir, normalmente, o da frente e perdi-te do meu espelho

E não te tentei re-encontrar

Os anos passaram e aprendi que os fantasmas estão no escuro da noite, no armário dos nossos sonhos perdidos.
Arrastaram correntes e ladainhas, apareceram e acordaram-me para mais não dormir, assustaram-me e chorei.
Até que uma noite deixaram de me incomodar, eram sussurros distantes, cada vez mais distantes.
Até não os ouvir mais.

Já me deixam dormir à noite
Já não sonho com o que perdi
Sonho com o que tenho

Segui no caminho que não é o teu
Segui para uma casa em que não te espero encontra
Para braços que não são os teus
Para uma paz que não é a tua
Para pensamentos que não são para ti
Segui a vida sem ti

Ver-te não me vai tirar o sono


Banda Sonora
Gonne for good, Morphine

Domingo, Janeiro 08, 2006

Boss. Mas não Hugo

Tenho uma confissão a fazer.
É mais um desabafo.
Um peso que tenho de partilhar

Sou… (isto não é fácil de escrever…)
(Coragem) ….
Sou o chefe de …
(Vá, tens de dizer, porra!)

Sou o chefe de 30 mulheres!

Pronto, tá dito…

Não me odeiem, ainda não percebi se isso é bom
É uma posição lixada, com muito trabalho, responsabilidade e cabelos brancos que elas estão a conseguir aumentar a um ritmo alucinante
São 30 mulheres e isso não é pêra doce

Por outro lado, são 30 mulheres e isso é sempre positivo
Dá para muitas fantasias.
Mas não se come onde se trabalha, por isso, fico sugadinho

Além de que uma bella donna em especial me matava.
Se tivesse sorte e morresse rápido, claro

Bom, sou o “chefe” à laia de repartição de finanças de 30 mulheres…
Tenho de lidar e aturar especialmente cinco, as minhas supervisoras, todas mulheres também. Apesar de haverem alguns homens, são a esmagadora minoria e não tenho muito contacto com eles.
Mas alguma companhia masculina seria útil, ter lá um amigo, um gajo, um camba, sabem por quê?
Sabem o que faz falta?
Alguém para poder falar dessas gajas todas!
Alguém com quem partilhar umas bocas indecentes sobre os seios de X ou a tranca de Y!
Alguém cujo ponto de vista poderá ser o meu ou não e iniciarmos uma discussão filosófica de qual delas ficaria melhor em lingerie ou será a mais “máluka”!

Conversas de gajo, coisas de alguém que não morreu para a vida e tem o seu quê de voyeur (não é novidade, afinal, tenho um blog).
Mais vale um gajo para conversar que um processo por assédio, não?
Sou o boss de 30 mulheres e tenho de viver com isso, bem comportado e caladinho.

Porra, que isto de pensar e não dizer nada ainda me vai dar uma hemorragia interna


Banda Sonora
Mishka, Lonely

Segunda-feira, Janeiro 02, 2006

Enfim, um novo ano (melhor que o ultimo, o que não deve ser difícil)

Não sei se é do álcool ou de sermos fatalistas, mas sempre que o ano muda acha-se que se muda algo mais que uns segundos e uma data.
Há sempre uma esperança que seja O ano, que seja diferente, melhor, de mudanças e que o ano anterior, apenas a uns segundos de distancia, ficou para trás e é tudo possível, uma nova genese, como a lagarta e a borboleta:

Deixar de fumar
Deixar de dar tabaco ao crava do escritório
Sorri mais
Sorrir menos a mulheres que só querem o nosso dinheiro. E ás stripers também.
Ser mais simpático com os idosos e putos ranhosos
Ser menos porreiro com os “amigos” que tão sempre enrascados e nos cravam sempre
Trabalhar mais e melhor e ter paciência para os lambe botas que nos enterram
Contratar uns moldavos para aviarem os lambe botas que nos enterraram a promoção
Fazer mais exercício. Se possível, daquele que é considerado “desporto”
Comer comida mais saudável
Comer mais cozido, de preferencia com uma sesta no rescaldo
Terem filhos. Os outros, claro
Ou não ter mais filhos
Dizer mais “és fantástica”
Não dizer “és fantástica” a todas as gajas que se quer engatar
Mentir menos
Mentir mais e sempre quando perguntarem idade e estado civil se for uma gaja boa
Cortar o cabelo ”à homem”
Cortar o cabelo por que é ridículo deixar crescer de um lado para tapar a careca do outro
Beber mais água e menos dos seus derivados
Beber menos na presença dos sogros por que chamar a sogra de “gaja chata” não é boa política
Mais dinheiro
Poupar dinheiro para que “mais dinheiro” seja ter saldo até dia 20 e não lixar o visa em “bares dançantes”

Nos primeiros dias do ano, há quem acredite que tudo isto é possível, que a mudança está em marcha.
Mas pelo dia 23 já se instalou a primeira depressão do ano, as primeiras duvidas, dividas e tentações bem como a conclusão que o cosmos não está virado para datas do calendário gregoriano e que Murphy não dorme

E volta tudo à mesma

Bom ano a todos


Banda Sonora
Carolina, Josh Rouse